Há certos momentos na vida que por mais que adiemos algo por acharmos que temos de esperar pelo momento certo, a vida prega-nos partidas e encarrega-se de nos pôr frente a frente com o inevitável. Interessante e intrigante não? Pois bem, foi numa desta partidas que acabei a ver o filme “Life Itself”, traduzido para português como ‘Isto é a vida!”, duas vezes seguidas. A primeira vez fui vendo e ouvindo enquanto estava fazendo outras coisas, quase como que uma companhia sabem? Acabei a ver o fim do filme agarrada à televisão. E pensei, não foi justo para esta história tê-la usado como uma mera companhia ao invés de ouvir a fascinante narrativa que estava a ser mostrada à minha frente. E foi assim, que pus o filme do início, não na ilusão de voltar a sentir o mesmo mas para prestar atenção aos detalhes que me escaparam.

Tinha este filme gravado na box da minha tv há meses, porque me tinha chamado a atenção. Já tinha, inclusive, começado a ver um dia mas parei porque nesse dia não estava nessa onda. Não sei, simplesmente não me apeteceu ver. E hoje parece que a vida decidiu que eu o deveria ver, e portanto era o filme que estava a dar quando liguei a tv para me fazer companhia. E pensei para mim, “ok, bora lá ver este filme finalmente”. E a verdade é que vou ter de ver uma terceira vez, porquê perguntam vocês? Estará ela a bater mal dos torniquetes? Não, a minha saúde mental está óptima, a questão resume-se ao simples facto do filme me deixado incrivelmente inspirada a escrever o primeiro post de 2020. Então aqui estou eu a debitar letras enquanto a narrativa se repete à minha frente.

E porque este filme me inspirou tanto, estão vocês a questionar-se. Imagino eu claro, que será essa a vossa dúvida do momento, não? Pois bem, este filme apanhou-me de surpresa. Tem uma narrativa muito terra-a-terra que poderia ser a minha ou a tua história de vida, tem tanto de sensibilidade quanto de momentos de murro no estômago, como comédia inteligente ou passagens tão subtis que quase as perdemos se não estivermos atentos à sua simplicidade. Se tivesse de fazer uma paralelismo, e entre o roubar uma ideia do filme e ser só um pouquinho spoiler, este filme é a versão cinematográfica de um álbum do Bob Dylan.

Não tenho qualquer pretensão de ser spoiler à séria, e como tal não vou aos detalhes da história do “Isto é a Vida!”, mas o que posso partilhar é que a mim despertou conceitos que tenho construídos na minha mente, como o de qualquer um de nós (seres humanos neste planeta Terra) seremos lembramos após a nossa morte tanto quanto houver alguém que saiba a nossa história e a queira contar e com isso perpetuar no tempo que já não será nosso mas sim de quem viverá ou dará continuação à nossa missão nesta vida.

Um dos meus guilty pleasures televisivos é ver episódios aleatórios da série americana “Quem pensas que és”. Também foi feita uma temporada em Portugal, e eu vi claro. Esta série para quem não conhece ajuda aos seus convidados a perceber quem foram os seus antepassados e quais foram as suas histórias de vida com base em documentos e alguns artefactos que estão salvaguardados para que a história não seja esquecida. Claro está que a pessoa convidada poderá escolher uma pessoa que vai ser o ponto de partida da investigação, uma avó ou avô são os mais comuns eleitos. E conto-vos isto, porque a verdade é que adorava poder ter essa possibilidade, a de ter acesso à história dos meus antepassados como se uma história de livro se tratasse. Viajar no tempo e nos séculos que me antecederam. Mesmo que o que iria encontrar seriam factos, e a narrativa em si, essa caberia a mim reescrever ou interpretar. É certo que posso perguntar imensas coisas aos meus pais, que graças a Deus estão vivos, mas a verdade é que não tenho coragem por pensar que algumas das perguntas os possa fazer reviver situações dolorosas ou mesmo reavivar saudades que tanto esforço fazem por esconder de mim. Mega contra senso, certo? Eu sei, mas é assim a minha cabeça sempre a processar mil e uma opções ao mesmo tempo.

A derradeira ideia com que termino este post de hoje, é que apesar de cada um de nós ser único e como prova disso temos o nosso ADN, somos também partes andantes das histórias dos nossos antepassados. Há a ideia de que para conseguirmos perceber o presente e construirmos e futuro de um modo consciente e verdadeiro, temos de conhecer o passado. Não podemos mudar o futuro, mas podemos aprender com o passado para que os mesmo erros não sejam cometidos, para continuarmos a quebrar ciclos que os nossos antepassados ou até mesmo nós próprios iniciamos outras vidas.

Feliz 2020!

Até breve,
Gabriela