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No princípio era o verbo

Eu fui educada numa casa onde a religião seguida era e é a Católica Apostólica Romana (não sei porque digo desta forma, mas foi algo que me ficou desde pequena), como em tantas outras casas portuguesas. Apesar de ter seguido todas as cerimónias e respectivas “formações”, desde de cedo que questionei o que se dizia na missa per se, mas também que lá se pregava versus o que as pessoas praticavam no seu dia-a-dia. Verdade seja dita que o facto de dizerem que a mulher tem de obedecer ao homem, nunca me caiu bem…

Já que até certa idade tinha de ir com os meus pais à missa, decidi então não rezar em voz alta (após um certo debate com a minha mãe sobre o assunto, claro!) para ouvir as leituras e a mensagem do dia por parte do padre. Não me converti numa religiosa católica, digo converti porque nunca me senti verdadeiramente parte, era mais como que um respeito pelos meus pais e por vezes também por obrigação.

A minha relação com a religião católica sempre foi, “ela” lá e eu cá. Como duas pessoas que concordam mutuamente em discordar! Mas sempre me senti bem em igrejas, principalmente as de pedra e silenciosas. Havia algo de paz nesses lugares sagrados que me ajudava quase como que a acalmar os pensamentos. Uma forma de meditação talvez.

Tradição ou importação?

Eu sou de uma aldeia perto de Ponte de Lima, em pleno Alto-Minho. E por estes lados quando eu era pequena, recordo-me que se festejava com muito respeito e dedicação o Dia de Todos os Santos, que é no dia 1 de Novembro, e o Dia dos Finados que é no dia 2 de Novembro. Em boa verdade, na minha família celebravam-se os mortos no dia 1 de Novembro (apesar de a religião ter ditado que tinham de ser dias separados, e para um há feriado e para o outro não..enfim, detalhes!), com ida à missa onde se ouvia com muita atenção e se ofereciam as orações aos nossos entes queridos que já não estavam no mundo dos vivos. De seguida ia-se ao cemitério, onde o padre benzia todas as campas e orava por todos os mortos. Nesse dia as campas enchiam-se de flores e velas, em memória dos que lá habitavam. Era uma cerimónia muito espiritual e com uma certa beleza simbólica ver todas aquelas velas acesas ao anoitecer; isto se não contarmos com os egos dos que querem ter a campa do seu familiar mais bonita do que a do vizinho e com isso têm de ter os melhores arranjos de flores e afins.

Nos últimos anos, começa a ser habitual ver-se as lojas com decorações e publicidade alusiva ao Halloween. Coisa que me deixa intrigada devo dizer! Pois se por um lado, devemos estar agradecidos pela globalização por outro não devemos importar tudo só porque nos enche o olho, ou porque nos metem olhos adentro através de publicidade que as tradições dos outros são agora também as nossas. Digo isto com um certo desagrado, confesso, pois não vejo qualquer lógica em estarmos em Portugal a comemorar o Halloween. É uma tradição americana, onde aí faz sentido. A nós entra-nos pela televisão  através de filmes, noticias e claro que com tanta importação as empresas aproveitam-se para ganhar mais uns eurozitos à custa do “zé povinho”. E com isto dou por mim a ver criancinhas mascaradas como se do Carnaval se tratasse, com uma mistura de princesas com a cara pintada como se estivessem a chegar do México para comemorar o Dia dos Mortos. Isto ao invés de, se comemorar o Dia das Bruxas ou os Bolinhos-Bolinhós, ou qualquer outra tradição nacional alusiva aos dias que antecedem o dia 1 de Novembro.

Ainda não tinha investigado o que significava o Halloween para além do que nos “vendem” pela publicidade ou nos filmes americanos (casas decoradas, pessoas mascaradas, crianças a pedirem doces, ver filmes de terror, abóboras recortadas com luzes lá dentro, etc),  então, segundo pesquisei a tradição do Halloween foi levada para o Estados-Unidos pelos irlandeses. E, crê-se que a origem desta tradição começou com os celtas que acreditavam que com o inverno vinham os mortos para visitar as suas casas, onde iriam assombrar as suas colheitas e animais. E como tal os celtas começaram a usar símbolos para afastar os espíritos dos mortos, como sendo se mascararem ou usarem as cores outonais como o laranja.

Já no México há toda uma festividade à volta dos Dias dos Mortos, onde em vez de se ter medo deles, faz-se uma grande festa onde se prepararam as comidas favoritas dos defuntos como gesto de bem receber. Pois acreditam que nestes dias os mortos vêm visitar os vivos. Também as caras são pintadas como se fossem crânios, em tributo aos tempos em que os crânios eram guardados e depois mostrados como um trofeu nos rituais que celebravam a morte e o renascimento.

O meu namorado é de Coimbra, e aí se comemoravam os dias que antecediam o dia de Todos os Santos com saídas à noite, onde as crianças levavam caixas de papel com buracos a simular olhos e boca e uma vela lá dentro. As caixas eram depois usadas para taparem a cara quando tocavam à porta das casas para cantarem os Bolinhos-e-Bolinhós, que tinha como lenta-lenga:

Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós
Para dar aos finados
Que estão mortos, enterrados
À porta daquela cruz
Truz! Truz! Truz!
A senhora que está lá dentro
Assentada num banquinho
Faz favor de se levantar
Para vir dar um tostãozinho.

Se o dono da casa abrisse a porta e desse qualquer coisa, a letra da música continuava da seguinte forma:

Esta casa cheira a broa
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora algum santinho.

Caso não abrissem a porta, a letra era um pouco diferente:

Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho
Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto.

Seja qual for a tradição seguida, o mais importante é estarmos conscientes do porquê a estarmos a fazer. Qual o seu significado e como queremos contribuir para as tradições que se vão perdendo ou enraizando na cultura nacional, através da passagem de valores às nossas crianças.

O saber não ocupa lugar

Hoje em dia, e depois de um longo caminho, sei que sou uma pessoa espiritual mas não religiosa. E assim estou em paz comigo e com os outros. Continuo a educar-me para saber mais e com isso conseguir melhor perceber os outros e suas raizes. Já que tirar conclusões precipitadas e fazer juízos de valor é o caminho mais fácil para vivermos, pois assim consideramos que estamos sempre certos e os outros é que estão mal. Mas verdade seja dita, cada reação tem um contexto e cada contexto teve uma origem. Seja ela um caminho de relva verde e fofa ou de pedras cinzentas soltas da calçada, só depois de darmos o beneficio da dúvida e criarmos empatia para com o outro é que poderemos abrir as portas à possibilidade de aprendizagem sem julgamento.

Hoje termino com uma frase de Mahatma Ghandi: “Viva como se fosse morrer amanhã. Aprenda como se fosse viver para sempre.”

 

Até breve,
Gabriela