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A curiosidade mata o… tédio!

A experimentação faz parte da aprendizagem. E eu gosto de dar largas à minha criatividade. Se por vezes saem resultados desastrosos, há outras alturas em que gosto do que crio. Um exemplo disso é a imagem deste post, tirei-a numa manhã de Agosto em 2017 quando o sol estava a nascer e eu ainda a despertar para um novo dia. E depois toca a experimentar as definições de edição do telemóvel a ver o que saía dali. Quando dou por mim, apercebo-me que criei um olho positivo e um negativo, à semelhança de uma impressão e um rolo fotográfico respectivamente.

Por vezes professora, mas toda a vida aluna

2019 tem sido um ano de viragem para mim. Decidi conscientemente reservar e investir tempo na aprendizagem da fotografia. Com tudo que isso abarca, desde a parte técnica à história da fotografia, passando pelos diferentes estilos e fotógrafos que fazem eles próprios a história desta arte. Um dos livros que ando a ler, chama-se “O lápis mágico – uma história da construção da fotografia” e começa por contar o controverso inicio da fotografia. Desde os pioneiros no uso de determinados compostos químicos, como as trocas entre pares da área, passando pela dúvida se a fotografia é conhecido como uma arte tal como a pintura. Depois tem uma série de textos de diferentes pessoas da época que falam, dando a sua interpretação do que a fotografia constitui e irá constituir. E é neste ponto que vou na leitura, já que não é um tipo de livro que se leia de enfiada. É para ir lendo e absorvendo, pelo menos para mim que fico a pensar nas análises dos autores.

Voltando à questão da discussão de a fotografia ser por si mesma uma arte ou não, e toda controvérsia à sua volta, é algo que me intriga. Pois se por um lado, a fotografia tem algo de utilitário como sendo o registo de factos científicos ou históricos e daí se criarem noticias ou livros, também pode ter algo de artístico. Depende como a usamos. Se pensarmos, a pintura também, já teve o seu quê de utilitária ou mesmo ser usada como registo. Basta recuarmos na história, na época pré fotografia, e os retratos familiares eram feitos com recurso à pintura. A educação, era feita com recurso ao texto e pequenas gravuras impressas. A religião recorria à pintura como forma de retratar as estórias que queriam passar de geração em geração. Talvez porque a gênese da fotografia passou por recurso a processos químicos e uma máquina, enquanto a pintura nasceu de um processo completamente manual, seja mais fácil concluir que a pintura tal como a escultura nascem da mão do seu mestre; não havendo um meio entre a ideia e a sua execução que não as matérias primas. Como disse Dorothea Lange: “Por bem ou por mal, o destino do fotógrafo está ligado aos destinos de uma máquina”. Se virmos bem, a pintura e fotografia, cruzaram-se a uma dada altura no tempo, quando os pintores recorriam à projecção de fotografias para pintarem as suas telas. Isso fará da pintura uma arte reconhecida como tal, per se? Enquanto a fotografia, porque não teve um inicio bem definido fica para segundo plano como uma arte menor? Não sei as respostas a estas perguntas. A boa nova é que curiosidade assim como muitos livros para ler, é coisa que não me falta!; e com isso me vou interrogando e conhecendo um pouco mais deste mundo fascinante que é a fotografia.

“A câmara é um instrumento que ensina as pessoas a ver sem câmera.” Dorothea Lange

Recentemente, numa feira do livro (tipo oportunidades bem dizendo), comprei uns exemplares de uma coleção do Expresso sobre grandes fotógrafos. E entre os que comprei, tenho um resumo com algumas impressões a acompanhar, da fotógrafa americana, Dorothea Lange. Conhecia apenas uma fotografia dela, “Mãe Migrante” de 1936¹, onde se pode ver uma mulher e mãe migrante, com um bebé ao colo e duas crianças, uma de cada lado, com a cabeça apoiada no ombro da mãe escondendo o rosto. A expressão daquela mulher diz tudo. É um momento incrível, que eu leio como contendo dúvida, desespero, incerteza num só olhar por parte de uma pessoa que deixou a sua casa para trás. Parte do trabalho da Dorothea Lange foi feito nos anos 30, ao serviço da Farm Security Administration, ela percorreu vinte e dois estados do Sul e Oeste dos Estados Unidos, recolhendo imagens que documentam o impacto da Grande Depressão na vida dos camponeses¹. Era essa a sua força motriz, pois caso contrário duvido que as imagens tivessem sido reconhecidas como foram. Não apenas por serem fotografia de reportagem, mas conseguindo captar momentos decisivos e com uma enorme componente emocional. Foi fiel a si mesma e com isso criou uma obra que é mundialmente e historicamente reconhecida.

Quando virei o livro, ainda antes de o abrir, encontrei uma imagem da fotógrafa com uma frase que a mim me disse e diz muito: “A câmara é um instrumento que ensina as pessoas a ver sem câmera.”. Reconheço-me nestas palavras, pois efectivamente através da fotografia tenho ganho coragem para fazer coisas que não faria se a máquina fotográfica não tivesse entrado na minha vida. E, quanto mais aprendo sobre fotografia, mais me apercebo que com o tempo cada pessoa que gosta deste mundo quer criar a sua identidade como pessoa criativa dentre desta arte. Seja por hobby ou como profissional. Para que tal aconteça, e o resultado seja verdadeiro, ou seja, as fotografias produzidas sejam uma extensão de quem as fez, temos de saber quem somos e o que nos motiva na vida. Pois se no inicio queremos fotografar tudo que mexe com o entusiasmo de uma criança que tem um brinquedo novo, vai chegar o tempo em que queremos mais do que a técnica. Queremos provocar emoção e memória em quem vai ver o resultado final, mesmo que não saibamos conscientemente, o nosso objectivo é criar algo que ajude os olhos dos outros a olhar, e finalmente a ver o resultado da nossa identidade criativa. Eu ainda tenho um longo e expectante percurso à minha frente de autoconhecimento como pessoa, e acredito que naturalmente irei encontrar a minha voz criativa na arte fotográfica.

O homem e a máquina

Máquina fotográfica e a relação amor-ódio por parte do fotógrafo. Pessoalmente falando, e com o nível de experiência que tenho, digo que escolher uma máquina é um bicho de sete ou mais cabeças…. Pois não se trata somente do orçamento e características técnicas (coisas mais tangíveis e comparáveis), passa também pelo lado emotivo. Qual a sensação que tenho ao olhar e sentir uma determinada máquina fotográfica na mão? Ao escolher uma máquina em detrimento de muitas outras, estou também, a fazer um compromisso entre aquilo que eu vejo enquanto ser humano, a minha idealização para uma determinada fotografia e a capacidade de, em última análise, o meu equipamento me facilitar a sua criação ou não. Gosto de simplicidade funcional, e no mercado actual em constante evolução e rivalidade de marcas, sinto que gasto mais tempo a investigar qual máquina comprar do que realmente gostaria.

 

Até breve,
Gabriela

 

 

 

 

 

(¹) https://pt.wikipedia.org/wiki/Dorothea_Lange